O interior do Uruguai e seu Teatro (do) interior
Por Luis Rubira
"Qué bello nombre es tu nombre, Uruguay (...) voz de paisajes, de escondidos ríos"
(Atahualpa Yupanqui)
O que era para ser uma viagem pelo interior do Uruguai, uma viagem com um amigo uruguaio naturalizado brasileiro (atualmente proprietário e professor do Centro de Estudos em Língua Espanhola na cidade de Pelotas/RS), um percurso a fim de aprofundar o conhecimento da geografia, da cultura e da história deste povo espanhol vizinho ao Rio Grande do Sul, transformou-se, em solo uruguaio, num contato intenso, fecundo e revelador do teatro que se faz nas cidades que margeiam o rio que leva o próprio nome do país, e que desemboca no estuário do Prata. O diálogo com pessoas de teatro nas cidades de Salto, Paysandú, Frey Bentos e Colônia do Sacramento, revelou-nos o que vem sendo produzido cenicamente no interior deste pais.
Em fevereiro partimos de Rivera, a cidade uruguaia que faz fronteira com o município brasileiro de Santana do Livramento, e fomos até Tacuarembó, que fica ao norte do pais e abriga o Museu Carlos Gardel, o Museu "del indio y del gaucho", e onde se realiza, anualmente, "La Fiesta de la Patria Gaucha" (festa que se estende por 4 dias no mês de Março e já está em sua 17º edição).
De Tacuarembó atravessamos, em direção leste, as coxilhas de Haedo, para ir a cidade de Salto, passando por uma região praticamente despovoada, com grandes extensões de campo e criação de gado. Durante este percurso de 224 km, entre uma conversa e outra, tematizamos o desamparo que o interior de nosso estado vem sofrendo em termos de apoio as atividades cênicas, a quase ausência de festivais interioranos, e nosso desconhecimento dos grupos de teatro do interior do Uruguai: nas raras vezes em que se pode assistir espetáculos oriundos deste pais eles vinham, sobretudo, de Montevidéu (e mesmo isto parece ter arrefecido pois o último Porto Alegre em Cena - sua 9ª edição realizada em 2002 - não contou com a apresentação oficial de nenhum grupo uruguaio). Pelotas, talvez por sua proximidade maior com o território platino nutriu durante anos, através dos festivais de teatro da cidade (que se realizam tradicionalmente por volta de setembro), uma relação mais intensa com o teatro "castelhano": para se ter uma idéia basta lembrar, por exemplo, que o grupo "Café Teatro" esteve presente no III e V festival (respectivamente 1987 e 1989), em 1990 o grupo "Teatro circular" de Montevidéu, em 1992 o grupo "Ensayo", também de Montevidéu... No percurso entre Tacuarembó e Salto surgiu, então, a questão: que grupos de teatro existem as margens do rio Uruguai e que tipo de teatro se faz ali e no restante do país?
Salto
Com aproximadamente 110 mil habitantes Salto é o que chamamos de "cidade grande" em um pais pequeno como o Uruguai, e é muito conhecida pelos brasileiros que visitam as termas de Dayman. Em Salto visitamos o teatro Larrañaga, um portentoso teatro de colunas greco-romanas inaugurado em 1882 e em plena atividade até hoje, onde se vêem pintados no teto os rostos de Calderón de la Barca, Shakeaspeare e Mozart, e que guarda sua memória em uma sala onde expõem-se recortes de jornais do início do século que anunciavam as grandes companhias de teatro europeu que vinham apresentarem-se na cidade. Também visitamos o Hotel Concórdia (onde hospedava-se Gardel), fundado em 1860 e que atualmente, além de hotel, funciona como um centro cultural de atividades permanentes e onde grupos de teatro locais encenam. E foi através da secretária de turismo que iniciamos nossos contatos com os grupos ligados as atividades cênicas do interior do país, a começar pelo diretor Roberto Lucero, que trabalha na rádio Salto AM e dirige o grupo:
D'entrecasa. O grupo é composto por 4 mulheres cujas idades compreendem-se entre os 30 e os 50 anos e trabalham com espetáculos voltados, basicamente, para o público feminino. Os textos utilizados para as montagens são do autor Gerardo Tulipano: em 2001 estrearam o espetáculo "Las viudas" e em setembro de 2002 "Sólo para mujeres", comédia que esgotou várias vezes os ingressos. Lucero ainda dirige um grupo de teatro infantil cujos textos também são de Tulipano: em 2000 estrearam "Aprendiendo a jugar", e em 2001 o espetáculo "La pandilla saca miedos".
Sintapujos é outro grupo atuante na cidade de Salto, que em agosto de 2002 apresentou o espetáculo "Tatón" do escritor uruguaio Ignácio Martinez e depois viajou ao Perú apresentando o espetáculo nos festivais internacionais de Arequipa e Cuzco. Trabalha também com espetáculos voltados para o público infantil tendo apresentado, em maio de 2002, no Hotel Concórdia, "El circo de Abronino" de Amalia Nieto.
Há ainda o grupo Los del pátio, que entre janeiro e maio de 2002 apresentou-se com o espetáculo "Puñal de luna" e é bastante atuante na cidade, mas com o qual não tivemos oportunidade de travar um contato e aprofundar o diálogo.
Durante estas nossas primeiras incursões, viemos também a saber que todos estes e demais grupos de teatro do interior do Uruguai estão ligados a Asociación de Teatros del Interior (ATI) que possui os e-mails, telefones e endereços para correspondência de todos os grupos do interior, interliga-os e integra-os, unindo grupos que não tinham conhecimento uns dos outros, promove diversas atividades e realiza um festival de teatro anual que ocorre no mês de Maio na cidade de Paysandú.
Paysandú
De salto fomos a Paysandú (localizada no centro da parte leste do pais, à beira do rio Uruguai). O percurso entre estas duas cidades revela minifúndios onde há, sobretudo à beira das estradas, grandes plantações de Girassol. Entre outras coisas, a cidade abriga o mausoléu onde estão os restos mortais do General Leandro Gomez (um libertador admirado pelo povo uruguaio que foi morto em 1865 e para o qual Ruben Lena escreveu um poema que foi cantado pelo célebre grupo Los Olimareños) e o teatro Florêncio Sánchez, inaugurado em 1876 (atualmente considerado Monumento Histórico Nacional e onde foi executado, em 1915, pela primeira vez, o hino nacional uruguaio). É uma cidade onde há uma intensa atividade teatral, na qual se realizaram bienais de teatro desde a década de 80 e onde, desde 2001, ocorre o festival de teatro do interior do Uruguai que levou a efeito a primeira mostra de teatro do Mercosul na cidade de Paysandú entre os dias 09 a 12 de maio, tendo contado com a apresentação de mais de 15 espetáculos de grupos da Argentina, Brasil, Colômbia, Espanha, Paraguai e Uruguai, além de diversas oficinas e mesas redondas.
A partir das orientações de Roberto Lucero, procuramos o grupo Atahualpa e o grupo Teatro del Sótano. Quanto ao primeiro grupo localizamos sua sede, mas não encontramos nenhum dos integrantes. Posteriormente, depois de alguns contatos, conhecemos Pablo Gonzales, psicólogo e diretor dos grupos Teatro del Sótano e Taller de Teatro. Gonzales não apenas nos inteirou amplamente das atividades teatrais e culturais de Paysandú, como também demonstrou toda a hospitalidade latente do povo uruguaio nos levando para conhecer a cidade e as pessoas envolvidas com teatro e dança. Em Paysandú, há também, basicamente, três grupos consolidados:
O grupo Teatro del Sótano, que já esteve em Moscou no ano de 2002 representando o teatro uruguaio, conta, entre seus trabalhos, com o espetáculo adulto "La Delfina, una pasión" de Suzana Poujol (autora que ganhou em 1998 o Primeiro Prêmio Municipal de Dramaturgia) e é dirigido por Pablo Gonzales. O elenco conta com bons profissionais, tais com Laura Galin (que é professora de Balé, possui uma Escola de Balé na cidade, e integra também o grupo Imaginateatro) e Sofia Sánchez (que, em co-direção com Gonzáles dirige a comédia musical infantil "Soñando" de Beatriz Corbi y Walter Cotelo) que é professora de teatro e atua também no:
Grupo Taller de Teatro, o qual apresentou no ano de 2002 os espetáculos "me moriria si te vas" e "Polaroid de amores cotidianos" (e aqui uma sinopse da peça: "En el amor hay momentos, instantes. Breves instantes, emociones, flashes. Son como Pólaroids que congelan un momento, que al mirarlas luego nos cuesta reconocerlas. Estos son retazos, fragmentos entrelazados. Un montón de estados de ánimo posibles").
ImaginaTeatro, é um grupo fundado em 1997 e com mais de 15 espetáculos montados e apresentados. Entre estes o de 2002 intitulado "mirando al tendido" (texto escrito em 1987 pelo escritor e roteirista de cinema, o venezuelano Rodolfo Santana), obra que constitui um rico diálogo entre um touro e um toureiro, onde está em questão algo importante nestes dias atuais: o fato de que morrer com dignidade é melhor do que ser massacrado.
Antes de partirmos de Paysandú (em direção a Fray Bentos) tomamos contato, no estádio Artigas, com o carnaval do Uruguai: os Candombes e as Murgas, gêneros musicais e expressivos repletos de informações históricas, sociais e políticas do povo uruguaio, e que conta com uma participação maciça da população que lotou o estádio à noite, sentada nas arquibancadas em quase silêncio, tomando chimarrão e assistindo as manifestações carnavalescas.
Fray Bentos
(e o grupo de pesquisa e experimentação teatral "Sin fogón")
A pequena e elegante cidade de Fray Bentos abriga o belíssimo Teatro Miguel Young (inaugurado no ano de 1913), o Museo Luis A Solari (que funciona num casarão de 1879 reformado, inicialmente para ser a prefeitura da cidade, mas que hoje conserva parte do acervo deste que é um dos maiores pintores uruguaios e que viveu boa parte de sua vida em Fray Bentos) e as instalações do falido (nos anos de 1980) Frigorífico Anglo (que teve atividade durante quase todo o século XX, sendo, inicialmente a Fábrica Liebig Extract of Meat Company, criada pelos alemães em 1865, e em 1924 comprada pelos ingleses).
O frigorífico Anglo (que possui uma arquitetura muito semelhante a do Frigorífico de mesmo nome existente na cidade de Pelotas/RS), exportou muita carne durante as duas guerras mundiais e, devido a isto, a cidade de Fray Bentos ficou conhecida como "a cozinha do mundo". Com um título destes no centro de sua história, o que poderia se pensar de um grupo de teatro local chamado, sugestivamente, de Sin Fógon e que montasse um espetáculo de criação coletiva com o nome de "La cena miserable" (a refeição miserável)?
Foi em Fray Bentos que encontramos um grupo de teatro solidamente estruturado, que trabalha atualmente com pesquisa teatral na linha do teatro antropológico de Jerzy Grotowski e Eugênio Barba, e que nos revelou a profundidade do teatro uruguaio, seu teatro interior. O grupo Sin Fogón existe desde 1986. Em 2000 adquiriu sua própria sede e conta com um elenco de pessoas acima de 30 anos que já definiram sua situação profissional. Tem à sua frente a professora de teatro da universidade e dramaturga Estela Golovchenko.
Estela e Roberto Buschiazzo nos receberam na sede do grupo, um prédio antigo que estava fechado há anos e onde funcionara a 1ª cooperativa de trabalhadores da cidade de Fray Bentos. O lugar foi adquirido há dois anos atrás também de forma cooperativa, outra vez por trabalhadores, só que, desta vez, trabalhadores de teatro. O espaço cênico do Teatro Sin Fógon é modificado de acordo com a necessidade de cada espetáculo feito pelo grupo, além do que o lugar também funciona, em determinados dias da semana, como "Café Concerto" e como escola de teatro. A manutenção do local é feita a partir de sócios que contribuem mensalmente com $25 pesos (aproximadamente 1 dólar) e que podem assistir gratuitamente os espetáculos do grupo a cada montagem e ainda usufruir de outras vantagens da cooperativa. A limpeza e todas as atividades de reforma do teatro são realizadas pelos próprios integrantes do grupo num multirão semanal.
De 1986 a 1999 o Sin Fógon montou 16 espetáculos, sendo que, dos textos utilizados para a montagem constam alguns escritos pela própria Estela Golovchenko ("no asustamos a nadie" de 1993 e "El teatro nasció en Febrero" de 1999). Desde sua fundação o grupo ganhou vários prêmios no teatro Florêncio Sanchéz nos anos de 1991, 1993, 1995 e 2001. Em 1992 participaram da V mostra nacional de teatro de Montevidéu, sendo convidados para apresentarem-se em diversas regiões do país desde 1989. Dentre os espetáculos apresentados pelo grupo está "El herrero y la muerte" (de Jorge Curi y Mercedes Rein) - espetáculo que de algum modo nos é familiar no Rio Grande do Sul, pois foi montado pelo grupo móvel de teatro "Viramundos", grupo do interior do nosso estado, ligado a Universidade de Passo Fundo, que trabalha com teatro popular e que em 2002 apresentou no Porto Alegre em Cena o espetáculo "O parturião".
O trabalho "La cena miserable" (que nos fez lembrar certas montagens do grupo gaúcho "Ói nóis aqui traveiz"), dirigido por Estela Golovchenko e Leonardo Martinez nos foi mostrado em vídeo. Foi montado a partir de experimentações coletivas do grupo, de ampla pesquisa mitológica e arquetípica, e dos elementos que envolvem o imaginário da própria comunidade de Fray Bentos. Para se ter uma idéia, o espetáculo é montado para o público que cabe em um ônibus: 46 pessoas que são transportadas pela cidade e depois adentram o espaço cênico do Teatro Sín Fógon, onde permanecem a portas fechadas até o final da apresentação. Entre os personagens: Caronte, Medusa, Esfíngie, Thanatos, Hárpias e Sátiros. A história é a tragédia atual das relações humanas, onde ao público é oferecido o banquete do último homem (e em se tratando da cidade que foi a "maior cozinha do mundo" um espetáculo como este é, no mínimo, intrigante, instigante e sugestivo). A próxima montagem do grupo envolverá o Frigorífico da cidade, tendo como base um texto premiado de Estela Golovchenko.
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Enfim, este foi o panorama cênico que encontramos nas maiores cidades que margeiam o rio Uruguai. Ainda em Colônia do Sacramento travamos contato com a Comédia Municipal de Colônia, grupo que não está vinculado a ATI, que trabalha no teatro municipal da cidade e atualmente monta o espetáculo Trezentos milhões de Robert Alt. Ficamos sabendo ainda da existência inúmeros grupos interioranos cuja relação de endereços nos foi fornecida, com os quais não tivemos oportunidade de dialogar, mas que certamente trariam novas surpresas e revelações da produção atual do teatro uruguaio.
Nosso maior festival de teatro no Rio Grande do Sul o Porto Alegre em Cena (criado em 1994), realizou no ano de 2002, a descentralização de boa parte dos espetáculos distribuindo-os pelos bairros e vilas da cidade. Todavia, mesmo esta boa e intensa atividade teatral ainda limita-se e concentra-se na capital (até mesmo porque é um festival municipal), enquanto notamos que o interior do nosso estado, em termos teatrais (para não falar de outras atividades) tem ficado a míngua. No Uruguai pudemos perceber que a idéia de uma Associação de Teatros do Interior fomentou a organização dos grupos, e a realização anual (que se dá no mês de maio) de um festival que envolve estes grupos possibilita uma grande descentralização da cultura (que não fica, assim, reduzida a capital do país). Talvez seja o momento do Rio Grande do Sul eleger uma cidade do interior do estado onde passe a acontecer um festival estadual de teatro que interligue nossos grupos do interior gaúcho.
Nos últimos anos houve um contato cultural intenso entre a capital de nosso estado e a capital argentina, e sem querer desqualificar ou desvalorizar as produções oriundas destes grandes centros urbanos, talvez seja o momento de fomentar a descentralização iniciando um contato cultural fecundo (apresentações, oficinas, palestras) entre o interior do Rio Grande do Sul e o interior do Uruguai, que é um país próximo a nosso estado. Talvez este seja o primeiro passo para aprofundarmos nossas relações culturais com os países vizinhos ligados ao Mercosul e, sobretudo, com os grupos de teatro que também trabalham no interior destes países. Afinal as grandes capitais são como o mar, mas é preciso valorizar os rios que levam a este mar, é preciso valorizar o teatro do interior.

