Manhã


Por Éver Ribeiro


Tudo vibra demasiado no cinza deste dia. No ar gelado que adianta-se em arestas e força a reverência das árvores. O chocalhar dos vendedores de vale-transportes, assoalhando-se entre os transeuntes apressados, forma uma caótica cadência. Do outro lado da vitrine do bar da esquina, homens contam vantagens entre o vapor do café. Seus ecos invadem a rua e falecem perante o som do tráfego.

Uma loja abre as suas portas com novas liquidações. Novas músicas lideram as paradas de sucesso. Uma nova moda se espalha pelas ruas. No jornal, apenas velhas notícias, velhos temores. O mundo das novidades segue antiquado: anacronias.

Pessoas saem de suas casas, tomam ônibus, atravessam ruas, aglomerando-se em cada vez maior solidão. As adjacências nos afastam.

Tudo vibra demasiado e cinza. Antes colorisse o dia em passos lentos e descalços. Sem alaridos. Antes olhasse para o lado e transformasse o medo em poesia. Abandonasse veículos, e assoviasse desprenteciosamente, de mãos no bolso, enquanto se entrega ao macio da manhã.

Retribuo o sorriso malicioso do camelô. Calço meus sapatos, respiro o pouco de ar puro que resta e sigo minha vida de plástico, entubada em meu individualismo. Deixemos as ilusões para a noite e seu onírico véu.

|