Fábula
Por Éver Ribeiro
O telefone soou brutal. Afundado no sofá, ele abriu os olhos vagarosamente, sentindo a parca claridade da sala arranhar seu despertar. Tudo o que viu foi a pintura gasta do teto e uma imensa teia de aranha no canto da parede - uma imagem que foi se formando vagarosamente enquanto suas pupilas buscavam o foco exato. O telefone tocando e ele sem saber exatamente onde estava e se estava todo ali. Aparentemente sim. Num impulso trôpego, alcançou a cadeira junto da escrivaninha, onde encontrou, em meio a anotações amareladas, latas de cerveja e uma fotografia picotada, o estridente aparelho. Seu braço já traçava o caminho de encontro a ele quando resolveu parar.
Revistou os bolsos procurando um motivo pra ficar mais atento. Sabia quem encontraria do outro lado da linha e as palavras que seriam pronunciadas mas, na verdade, sabia que era exatamente isso que queria: a canalhice exposta, porém presente. O agudo do telefone soando ríspido em seus ouvidos até calar-se profundamente com a mesma brutalidade da chegada.
Tirou o fone do gancho mas já havia sobrado apenas aquele sonzinho em 440hz, indo e voltando, lhe avisando em lá natural que a linha voltara a ficar livre e que só sobrara o silêncio e a luz da televisão desfilando matizes de azul nas paredes da sala. Em seu peito, um barulho infernal... e nenhuma cor.
Deve ter sido o silêncio que se instaurou. Um silêncio tão profundo que ensurdecia. Ou a vontade de transcender. Pode ter sido qualquer coisa. Tudo o que sentiu foi uma súbita - e que depois iria considerar descabida - vontade de chorar. Lembrou-se das velhas fábulas do Oscar Wilde. Da Rosa e do Príncipe Feliz. Não sabia o porquê mas aquilo lhe trazia calma. Lembrou-se da meninice com que os conheceu e o soluço que lhe trouxeram. O mesmo soluço que invadiu seu peito naquele morno e lento desfalecer do sol.
E nem reparou na beleza púrpura estampada na janela, embriagado que estava do seu próprio fim de tarde.

