Review
Por Éver Ribeiro
"A poesia está morta mas juro que não fui eu. Tudo a minha volta são reclames. Desejos vãos e só"
[Zeca Baleiro]
I
NOCTÍVAGA
Perambulo pela cidade
Tropeçando em vira-latas
Embriaguez efêmera
Procuro algo
Que fale de tudo
Que só fale de mim
Sou ainda mais subjetivo do que aparento
Perambulo por esquinas
Embriagado pelo pensamento
Meus olhos fixam-se em pontos inexistentes
Entre um passo e outro destraio-me
Procuro teu corpo
Imagino teus lábios
E perco-me na vastidão dos teus beijos
Perambulo no teu corpo
Rato de teus subterrâneos
II
SOLO URBANO (PARA INSTRUMENTO DE CORTE)
Noite!
Penso em quase nada, de pé, no parapeito da janela, de onde meus olhos sobrevoam a densa bruma repousada sobre a cidade. A evolução etílica dos bares. A doutrina estéril dos pixadores, rasgando a noite com o som seco de sprays. O trotoir barato das prostitutas. O cotidiano afogado na cinzenta imensidão noturna...
*
Traço passos imaginários pela cidade, respirando o mofo que brota de suas esquinas. De onde estou vejo eclodirem, fugazes, cintilantes imagens caleidoscópicas...
*
Empenho-me em desviar da velharia punk que desfila um desenfreado festival de chutes e cusparadas sob o olhar atônito de uma platéia de concreto - apática como quase todos os outros - indiferente ao pulsar desconexo de sacos plásticos na cara de meninos-maltrapilhos: os pés descalços, as mãos floridas e no olhar uma mistura de inocência e safadeza, sofrimento e prazer. Ambigüidades urbanas. Flores que nascem do asfalto, crescem no asfalto e com ele envenenam-se. Náusea...
III
Calor
Umidade e vazio
Até as paredes choram
Imóvel Paisagem
Amparam minha espera
Atenta ao incansável trafegar dos segundos
Ao mistério impermeável das horas
A colossal dimensão do tempo
Silêncio...
Dias densos de desejos
Um vento morno varre da alma sentimentos longínquos
Tudo me parece claro
Preciso
Rigidez sintomática
Haroldo lumiando versos na minha janela
Métricas antunescências
Retas
Como o pampa
Sem metáforas
Porém Silêncio...
IV
Não quero ser teu gelo
Não
Não quero sê-lo
Quero selar-me em tua pele
Como algo que queime
E não gele
Quero a pira
O lança-chamas
Quero pirar em chama alta
Quero congelar apenas
A aridez da tua falta
V
DE UM SOM SEM NOME
Solidão sem fim
Em mim
Eu guardo o teu olhar
Eu guardo um bazar
De tudo que restou
Teu amor ateu
Valeu
Isso eu não vou negar
Mas eu não vou lutar
Por algo que passou
Afora a metáfora
Resta o silêncio
Impresso nos lábios teus
Palavra enclausurada
Se já não resta mais nada
Adeus
VI
MAYA ALTERNATE
Com balido
(ou sem ele)
Bailamos
Combalidos
Abalados
Embalados por sei lá o quê
Embebidos num mar de libidos
E baladas mais
VII
Um mundo sem
Pauta
Um projeto sem
Nome
E o momento
Fugaz
De solo sem
Tempo
Em que o vazio se
Consome
E a palavra não
Falta
VIII
ESTÁTICA
Fim de tarde
Minhas pálpebras pesam
O barulho linear do ar-condicionado
Hipnose sonora
Desde ontem minha garganta dói
Aprendi a considerar a doença uma aliada
'A doença como caminho'
Vários caminhos
Frases soltas
Presas pálpebras
Uma encruzilhada de desejos
O ponteiro dos minutos dá mais um passo
Tic... tac... tic... tac...
E essa luz
Parada
Produzindo sempre e sempre as mesmas sombras
Perspectiva eterna
Como se fosse sempre o mesmo dia
O mesmo segundo
De um mesmo lugar à margem
Imagens chapadas
Sem contra-luz
Sem densidade
Estáticas
Minhas pálpebras se fecham
Silêncio e escuridão
IX
De verde pintos meus dias...
Minhas noites...
Pinto de espera...
O que espero?
Às vezes teu abraço
Às vezes tua ausência
Outras vezes, simplesmente a noite
Existem aquelas das quais nada espero
E é justamente aí que tudo acontece
X
PURINHA (SEM GELO)
O Dinheiro é sujo
A mão que acumula muito mais
O pensamento é sujo
A mão que obedece muito mais
Um dia uma mão lavou a outra
E criou-se, assim, o simulacro da pureza
XI
SEM PROTOCOLOS
(em parceria com o Rubira)
Se queres bater, bate
Com força
Se achas que é teu, leva
Com tudo
Se é prá agora, corre
Com pressa
Por mim tudo bem
Que me associei à dor
Que me apartei de direitos
E cansei de precisar ser o primeiro
Se queres bater, foge
Sem fraqueza
Se achas que é teu, deixa-me
Sem nada
Se é pra agora, fica
Sem pressa
Por mim tudo bem
Que me associei à dor
Que me apartei de deveres
E cansei de precisar ser o primeiro
XII
CODA
O mofo, a esquina, a bruma...
O que é a neblina senão a cidade exalando suas mágoas?
O mofo, a esquina...
O sol sepulta a noite num majestoso flamejar de cor púrpura
O mofo...

